terça-feira, 29 de Setembro de 2009

O caso 2666, a vanguarda ou o regresso dos mortos-vivos

Joyce
Li Ulisses. Um destes dias vou ler 2666. Talvez Francisco José Viegas e José Mário Silva tenham engendrado uma campanha. São pessoas um bocado sectárias. Aquela coisa dos blogues estimula as capelinhas, é sabido.
No entanto, confunde-me a indignação. A campanha não é contra ninguém, é, antes de mais, a favor de um livro, possivelmente um grande livro.
Claro que será muito mais estimulante quando aos editores de livros, livros mesmo, não restar mais do que a clandestinidade, mas para já tem o seu interesse que no centro de uma operação editorial moderna esteja, digamos, um livro mesmo.
É natural que os indignados, entre a literatura de cordel e uma ameaça de Ulisses, se inclinem para a primeira — afinal, a descer todos os santos ajudam.
Os indignados, dizem eles, não gostam muito das campanhas que promovem a Margarida Rebelo Pinto, o Harry Potter, o Sousa Tavares ou assim, mas, classe oprimida, sempre as preferem a uma que lhes proponha essa coisa elitista de um livro possivelmente superior, possivelmente original. Os indignados não o confessam, mas são claramente por campanhas mais, digamos, brain friendly.
De resto, ninguém leu Ulisses.
Ninguém que os indignados conheçam.
E eles conhecem muita gente.
Ler Ulisses causa danos cerebrais.
Donde se compreende que seja um bocado obsceno a Quetzal tentar tirar lucros de um novo Ulisses.

Proust
Eu que não li 2666, e portanto também me ressinto da impertinência da Quetzal, preferiria que a editora tentasse (ilusoriamente) encher os cofres com a edição de outras mil páginas, umas que eu tivesse lido e aprovado. Lembro-me, por exemplo, para nos ficarmos pelo castelhano, de O Teu Rosto Amanhã, a obra-prima de Javier Marias. A Dom Quixote editou em 2005 o primeiro dos três volumes, mas depois deixou-se de merdas e decidiu que as suas escolhas passariam a poupar os leitores a essa coisa parva que é a literatura. O Teu Rosto Amanhã poderia ser anunciado como uma espécie de Em Busca do Tempo Perdido do século XXI, o que aborreceria as mesmas pessoas mas lhes permitiria trocadilhos mais imaginativos. Eu, claro, seria o autor da primeira recensão — ou pelo menos o primeiro a revelar o final.

Faulkner
Entretanto, Lobo Antunes, que (veja-se como isto está tudo ligado) gosta muito de O Som e a Fúria, escreveu agora um livro onde a mãe está a morrer e os filhos são os narradores.

terça-feira, 16 de Junho de 2009

Almoço de Domingo

Simão irrompe na sala. Os meus sentidos pêsames, diz, sem clareza para os presentes. Olham-no com a curiosidade de perceber em que coisas se perde aquela cabeça. Sentidos pêsames para todos, repete Simão, e parece sair-lhe uma vénia com as palavras. E um sorriso. Simão sorri. Os presentes, inseguros, acenam imperceptivelmente com a cabeça, o que deixa Simão inquieto, talvez não tenha sido a melhor entrada da sua vida.
Se pudesse voltar atrás, fazia as coisas de forma diferente. Entrava em passo marcial, talvez, levantando bem os joelhos, estacava em frente à mesa, batia com os tacões e só então soltava a frase que escolhera. Os meus sentidos pêsames.
Mas Simão não saberia como voltar atrás. A vida é um fluxo irreversível, oh se é, não há volta atrás. A natureza e os seus defeitos são uma coisa que irrita Simão, tanta complexidade, tanta beleza — perfeição, diz-se — e não há como se retroceder, um ano, uma semana, meia hora, um minuto, que seja. Simão retrocederia, não tem dúvidas nenhumas, mais de um ano, olé, talvez dois ou três, mas agora entrou na sala e as pessoas olham-no.
Não é bem um sorriso, aquilo, mas é, ainda assim, uma forma de se mostrar amistoso. Ele sabe o que se diz, que tem a expressão de um tolo, como aquelas vítimas de AVC, incapazes de imporem outras expressões aos músculos da face. Mas as pessoas precipitam-se nas suas considerações, uma coisa é o Simão público, outra aquilo que ele é em privado.
Este é o Simão público, acabado de irromper na sala com o seu melhor ricto facial, a expressão de quem olha os outros como se eles, predadores experientes, tivessem o sol pelas costas. Um ar de esforço, os cantos da boca levantados quase dolorosamente e os olhos semicerrados, é isto que as pessoas vêem. Sempre. Isto e os caracóis cinzentos descuidados, enriçados. E a barba de uma semana, duas. E as roupas, bem, as roupas desesperadas por um ferro de engomar e, num ponto ou noutro, por agulha e linha.
Mas Simão irrompe amistosamente e logo saúda todos os presentes. Os meus sentidos pêsames, diz, e pretende colher de imediato o efeito da sua saudação, passeando os olhos ofuscados pela sala.
Devia ter treinado mais, percebe, sem desistir da sua expressão de marca. À cabeceira da mesa, a irmã diz Simão, e ele entende logo o que ela quer dizer, falhou a entrada triunfal. Simão, e é uma voz que casa ternura e raiva. Raiva ou uma tristeza profunda e revoltada. Simão, diz a irmã, e ele percebe.
De qualquer modo, já que ali está, afunda as mãos numa travessa e sai de lá com as asas de um frango. Ou de dois frangos: parecem ambas asas esquerdas.
A irmã, Simão, e ele percebe, mas não recua. O ricto e os olhos semicerrados. É um Simão amistoso, este que ele trouxe à sala. Os meus sentidos pêsames, diz para a irmã, e ela percebe, mas não perdoa. Ou perdoa, mas disfarça, estão pessoas em casa, na sala.
Simão quer dizer bom dia, diz a irmã, e ele acena. Isso. Disfarça mana, não podemos embaraçar as pessoas, fazê-las perceber as suas limitações no que se refere ao entendimento.
Ele está muito contente por nos ter aqui a todos, continua, como se o interpretasse, a irmã, olhando-o com olhos de tutora.
Simão esconde as asas dos frangos atrás das costas. Foi apanhado. Está, de facto, contente por ver aquela gente ali, na sala, mas não havia necessidade desta exposição, a sua irmã sabe que ele detesta ser o centro das atenções.
Bem, talvez não deteste assim tanto ser o centro das atenções, o que ele detesta são manifestações de afecto, sobretudo manifestações de afecto que o apanham com asas de frango nas mãos.
Agora as pessoas vão olhar para ele com complacência por ser um tipo que se alegra com visitas e não com admiração por ser alguém que sabe entrar com elegância numa sala.
Merda, mana, diz Simão, e as pessoas estremecem.
Ele olha em volta. Sim, agora colhe o impacto das suas palavras. Merda, mana, repete. Depois quer desaparecer, sente-se enfastiado. Mas toma com resignação o seu lugar na mesa e isso parece contentar toda a gente.
Simão pousa os pedaços de frango no prato à sua frente e levanta um pouco o nariz. Nota a fragrância: respira-se alívio na sala. A pouco e pouco as pessoas ignoram-no, e isso permite-lhes sentir confiança, empenharem-se nas conversas, agir com naturalidade. Talvez seja melhor assim, pensa.
O seu olhar pousa agora no guardanapo com motivos campestres, uma herança. Poderia ficar assim horas, costuma ficar assim horas, sem que isso o incomode nem um pouco, mas sabe que não é altura de ceder. Hoje é um dia importante e ele comprometeu-se, faria boa figura.
Depois de uma pausa, um momento de concentração, volta à superfície, com aquele seu ar simpático. Vai inclinando a cabeça e o sorriso para onde há mais fulgor nas conversas. Parece-lhe adequado este movimento algo pendular, à esquerda e à direita. Como se estivesse num court de ténis. As conversas educadas são assim, oscilam entre interlocutores. Pelo canto do olho espreita a irmã, Simonetta (irritante o critério baptismal dos pais de ambos), quer ver se ela se orgulha dele, da sua capacidade de se interessar. Simonetta devolve-lhe um olhar cansado.
Na sua extrema cordialidade, Simão quase se esquece de comer. Mas não seria natural ele não comer, sobretudo num almoço tão importante quanto este. Interrompe, por isso, o acompanhamento dos diálogos, e durante minutos ataca o assado, com verdadeiro apetite.
Talvez aproveitando a sua aparente distracção, no outro topo da mesa um dos comensais aproveita para sussurrar para a orelha mais próxima. Não é bonito nem justo. Simão está a esforçar-se, por que não podem os outros imitá-lo? De qualquer modo, o seu compromisso é de ferro, não vai fazer um escândalo, não hoje. Ele é capaz de aguentar, não há-de ser por sua causa, mesmo que tenha razões para isso, que a harmonia se há-de quebrar.
Depois parece-lhe que o sussurro tem uma resposta, também sussurrada, e isso começa a ser demais. Simão ergue o queixo e arrota — no último momento limita-se a arrotar. A mesa estremece e os que segredaram mostram um ar bem compungido. Simão fica contente por apenas ter arrotado, seria uma pena deitar tudo a perder por uma precipitação sua. Pôr-se a chorar baixinho agora não lhe traria as palavras ditas em surdina, e medidas um pouco mais drásticas, como sair intempestivamente ou partir um prato, indisporiam a irmã e desagregariam o grupo.
Ele não queria o grupo desfeito, ter as pessoas longe era pior do que as ter a sussurrar ali ao lado. Desejava ouvir-lhes todos os dias as vozes incessantes, tac tac tac tac, como bicos de cegonha. Ali por perto, como agora, com as bocas visíveis, era quando mais se aproximavam do silêncio. Quanto mais audíveis mais silenciosas. Inofensivas. Sussurros destes, considera Simão, são ainda assim melhores do que todas as conversas de que os seus ouvidos não alcançam nem o rumor, mesmo que ele saiba melhor do que ninguém como ouvir atrás das portas, como entrar na casa das pessoas e ouvir as suas conversas. O que não suporta é imaginar a quantidade de tempo que as pessoas têm para falar longe dele. É nessas alturas que a sua cabeça se enche de outras vozes, mais dolorosas.
Durante alguns segundos, Simão pensa numa frase que encoraje os outros a manter conversas para toda a audiência. Sim, ele também pode fazer um esforço. A irmã iria apreciar um novo gesto seu, algo que complementasse a sua entrada quase-triunfal. A sua falhada-entrada-quase-triunfal.
Os enterros costumam ser bonitos ao domingo, diz, e a frase soou-lhe bem. Tem dúvidas quanto à verdade da proposição, mas não rejeita a ideia. A irmã diz baixinho Simão. Ok, não se fala de boca cheia, mana, retorque Simão, como se falassem por códigos. Sim, não se fala de boca cheia, fica contente por se entenderem a irmã. Mas Simão insiste: está um belo dia para um enterro, não acham?
A inquietação regressa à mesa. Simonetta tem um gesto de desespero, está cansada da franqueza do irmão. Se quiseres, podes comer na cozinha, diz-lhe ela, naquele tom de desistência que ele odeia. Na cozinha pode ouvir as vozes da sala e ser ele próprio, resmungar baixinho as suas considerações, a irmã sabe disso. Mas hoje ele quer fazer um esforço e conversar com as pessoas, conviver. E, na verdade, é domingo e está um belo dia para um enterro, será ele o único a notá-lo?
De qualquer modo, os sussurros acabaram. Os comensais estão silenciosos ou soltam algumas observações genéricas em tom perfeitamente razoável. Parece que as coisas podem seguir novamente um rumo aprazível para todos.
Há, no entanto, alguma rigidez na postura das pessoas. Simão não deixa de notar isso, mas pode ser só porque elas não estão habituadas a um almoço franco. As refeições em família ou entre amigos são hoje em dia raras e quando ocorrem escolhem-se restaurantes muito frequentados ou acende-se a televisão num programa ruidoso. Não há intimidade nem entrega.
Gostaria de partilhar estas considerações com Simonetta, mas ela há um bocado que pousou os talheres e o fixa com aquele olhar. Oh, não, pensa Simão. Não agora, mana. Não em frente às pessoas. Ele tinha-se retraído, não tinha? Não percas o controle, mana.
Simonetta serve-se de novo de vinho, está um pouco embriagada e gosta da sensação. Está também farta. Nem é que as coisas estejam a correr mal (não estão), mas cansa-a que nunca corram bem, que sejam só suportáveis, que no fim todos sintam alívio por não ter acontecido praticamente nada e não prazer por terem passado um bom bocado. Que culpa tem ela que aquilo tivesse acontecido? Não foi Simonetta que os juntou e muito menos foi ela que os separou. De resto, não poderia jurar pela inocência do irmão. Inocência quanto às causas, bem entendido, porque as consequências ocorreram todas pela mão dele.
O Simão gosta de pensar que é pintor, diz de forma sombria a irmã, e Simão sente que alguns diques chegaram ao seu ponto máximo de resistência. A pintura é uma tolice, uma tolice inofensiva, como aquele seu sorriso pateta. Em volta todos guardam um silêncio vigilante. Na verdade, prossegue Simonetta depois de uma curta reflexão, essas são as únicas coisas inofensivas nele.
Não se fala de boca cheia, mana!, grita Simão do seu lado da mesa, esperançado que os códigos ainda resultem. Os olhos enchem-se-lhe de água.
Tem jeito com as cores, o meu irmão, insiste com cinismo Simonetta, sobretudo tem jeito para não as misturar. Já viram as telas dele? São o máximo: cada uma de sua cor. Nem sei porque usa aqueles pincéis fininhos, um rolo teria o mesmo resultado. Mas ele gosta de pensar que há técnica e arte na forma como cobre minuciosamente uma tela de verde ou de azul. É hilariante. E estúpido.
Simão revolve a comida no prato com os dois talheres, como se misturasse cimento e areia numa obra. As suas bochechas estão inchadas ao jeito de alguém que sopra para um balão ou de uma criança que se recusa a respirar.
O meu irmão arranjou para si uma terapia ocupacional, declara depois Simonetta, consistiu nisso o seu último acto ajuizado. Aliás, custa perceber como ainda arranjou cabeça para decisão tão sensata.
E ri-se nervosamente.
Simão pousa os talheres e balanceia o corpo para trás e para a frente. Algo está para acontecer e ele tenta ignorar a intuição. Chora baixinho.
Mana, mana, diz, não passes para lá do arco-íris.
O arco-íris? Não é cómico o meu irmão?, solta uma gargalhada cruel Simonetta. O que é que há depois do arco-íris? Simão não lhe sabe dizer de momento, mas lembra-se que é algo mau, muito mau, porque ele já lá esteve e tem a certeza de que só voltou por milagre.
A irmã esvazia outro copo de vinho e deixa-se ficar a olhá-lo indecisa quanto aos sentimentos. De qualquer modo, não lhe apetece parar, está farta de se conter, de ser o elemento lúcido e responsável.
Não precisas de te acanhar, maninho, diz ela, todos aqui sabem o que te aconteceu. Loucura momentânea, determinou o juiz. Ela era uma cabra, também sabemos isso, até a mim exasperava, mas não valia a pena teres-lhe feito aquilo. Logo no dia em que te deixou. Inteligente era teres-lhe agradecido, grandessíssimo tonto.
Oh não, não o devias ter dito, mana. Não a devias ter evocado. Tantas camadas de tinta que ele passou sobre aquele tempo, tela após tela a recobrir o passado e agora ela é evocada e trazida à luz do dia num almoço de amigos. Continuou a amá-la mesmo depois do último estremecimento debaixo da almofada com que a sufocou.
Simão levanta-se. A irmã pensa que ele vai buscar outra asa de frango para disfarçar o constrangimento, o imbecil. Mas é a faca de trinchar que ele traz na mão e lhe passa de imediato na garganta com a subtileza de um profissional. O sangue de Simonetta é escuro como o de um touro de liça e mistura-se com o arroz no prato como se se misturasse com a areia da arena.
Os convidados à volta da mesa olham-no, imobilizados, brancos de espanto e medo. Simão hesita mas depois despede-se, os meus sentidos pêsames. Ninguém esboça um gesto, ninguém murmura uma palavra. Ele apercebe-se de como finalmente conseguiu impressionar a audiência, mas o sabor do sucesso é amargo. Ainda assim repete, os meus sentidos pêsames, e ocorre-lhe que estas palavras poderiam agora estar a ser tomadas como uma piada, como se ele fosse dado a brincadeiras. Tanto mais que não consegue deixar cair aquele sorriso eterno.
Ao sair para o quintal das traseiras nota o sol de Verão coado pela ramada antiga de morangueiro. Não evita dizer para si mesmo que está um belo dia para um enterro. Mas depois lembra-se com incerta contrariedade que os enterros raramente ocorrem no dia do decesso. Estala os lábios com pena e mete pelo atalho da bouça, a pensar que se pudesse voltar atrás um ano ou dois fazia as coisas de forma diferente.

quarta-feira, 10 de Junho de 2009

[Confirmou-se ontem um novo óbito]

Há-de arquivar-se.

terça-feira, 26 de Maio de 2009

Todos os homens são criminosos

Ultimamente, disse-lhe eu, interessavam-me as páginas de polícia dos jornais. Achava espantosa a profusão de casos, a frequência e a diversidade, a selvajaria impetuosa de uns e o requinte conspirativo de outros, todos cruéis, todos levados a cabo como se não houvesse mais no mundo do que os interesses, as necessidades, o ponto de vista dos perpetradores. Roubos, sequestros, violações, assassinatos fascinavam-me tanto quanto me horrorizavam, e a prosa objectiva dos jornais sérios que lia estimulava a minha imaginação como a dos periódicos sensacionalistas excitava os instintos da populaça. Era no não dito que eu mais me detinha, no hiato entre o início do golpe e o cadáver pronto para a autópsia, na febre que os vingativos experimentavam e não era assunto da imprensa, na psicologia dos violadores, na sanha dos assassinos, naquilo que só a literatura poderia explorar mas que a literatura geralmente transformava quando o explorava.
Havia muito de mórbido no meu interesse, reconheci, mas também um espanto insatisfeito com a natureza humana. Aquelas páginas dos jornais não eram um intervalo, um pormenor defeituoso da civilização; eram fulcrais, a parte visível e concretizada de um ânimo que fervia em lume brando em cada peito. Todos os homens eram criminosos em potência e vontade, era esta a minha tese, e as razões por que alguns se continham eram o mistério que importava estudar.
Líamos a imprensa do dia numa esplanada da praça, pernas cruzadas, cigarro nos lábios e uma bebida na mesinha redonda. Um hábito antigo que retomámos com naturalidade quando Octávio e eu reactivámos uma amizade de toda a vida, depois dos seus três anos de ausência, três anos que ele ainda evitava. Não tínhamos necessidade de mais conversa do que os breves comentários a esta ou aquela notícia, por isso não estranhei o silêncio quando lhe falei nestes meus novos interesses e reflexões, coisas que eu próprio ignoraria até à próxima edição do periódico. Mas percebi, porque olhei para ele enquanto falava, que as minhas observações o conduziram ao mesmo tipo de noticiário no seu jornal, talvez por necessidade de ilustrar o que ouvia.
Manteve-se em silêncio a explorar a perversidade humana e, depois de se ter demorado numa curta reportagem, pousou as folhas abruptamente na mesa e segurou a cabeça com as mãos, como se acometido por enxaquecas de que antes não padecia. Isto é absurdo, disse Octávio, abandonando o tom desapaixonado que o caracterizava, desde que me levantei não paro de tropeçar em coisas estranhas. Esperei que ele continuasse, não funcionávamos como outros interlocutores, era o silêncio de um que alimentava a conversa do outro. E ele continuou, nisto não tinha mudado. A primeira coisa que quis fazer quando saí de casa, disse, foi levantar dinheiro, mas a máquina, como todas as que tentei depois, comunicou-me que o meu banco não autorizava a operação, e nem consultar o saldo me era permitido. Por isso te disse que hoje pagavas tu, disse ele. Fiquei intrigado com aquilo, continuou, e regressei a casa para ver na internet o que se passava, não era possível que a conta não tivesse dinheiro. No entanto, lá estava a mesma mensagem, não tinha autorização para aceder a algo que era meu. Fiquei irritado, disse Octávio e eu tentei imaginar como seria o Octávio irritado, e alterei os meus planos. Não passearia no parque e viria directamente para aqui, fazer horas para o nosso almoço. Algum problema nas comunicações, sugeri, mas Octávio não concordava e manifestou-o abanando a cabeça. Não me parece, retorquiu, e pareceu-me menos quando me ia enfiar no chuveiro e descobri que não havia água quente, o gás não chegava ao esquentador. Octávio não era descuidado, não deixaria contas por pagar, por isso nem fiz a pergunta. Poderia ser só um daqueles dias de azar, disse ele, mas não me foi dado tempo para acalentar esta explicação, em que já não acreditava, de qualquer modo: quando liguei o microondas para aquecer um pouco de leite percebi que entretanto ficara sem electricidade e quando já me ia contentar com um copo de água da torneira, era a água que tinha sido cortada. Água, gás, electricidade, os três elementos da vida doméstica moderna foram-me recusados, como antes tinha sido o dinheiro. Esbocei um sorriso paternal, não era uma coisa assim tão extraordinária, aqueles cortes nos abastecimentos ocorriam por vezes em simultâneo quando havia obras na rua, as tubagens e os cabos partilhavam a mesma vala. Mas Octávio recostou-se com um ar abatido, à espera que me desaparecesse o sorriso.
Sim, voltou ele depois de uma pausa, e os fios de telefone também estão enterrados ali, suponho que não me deveria espantar ter ficado depois sem linha. Já os telemóveis… Tu ligaste para mim, sabes que fiquei sem cobertura. Continuo assim, aliás, e somos da mesma rede. Era verdade, tínhamos confrontado os aparelhos quando eu cheguei e o censurei por se ter deixado ficar incontactável. Mas há outras coisas, ia prosseguir com veemência Octávio quando teve de se interromper porque chegava uma conhecida nossa que, jovial, pedia permissão para se nos juntar na mesa. Octávio teve um gesto de enfado, delegava em mim a decisão e a diplomacia, ele tinha outras preocupações e não se importava de parecer rude. Retribuiu secamente os cumprimentos e enfiou o nariz no jornal à espera que voltássemos a ficar sós. Eu pus-me na conversa com Alexandra, espiando-o de início, dando-me conta de que ele não lia uma frase, embora não retirasse os olhos do jornal.
Três anos antes Octávio teria ficado muito excitado com a presença de Alexandra, uma velha paixão, mas agora ignorava-a, nem disfarçando o desejo de a ver partir. Era evidente que alguma coisa de grave o atormentava e eu devia arrepender-me da ligeireza com que encarava o seu relato.
Infelizmente, Alexandra parecia muito interessada em ficar e eu, ao contrário de Octávio, não resisti à sua presença e ao seu canto de sereia: em poucos minutos estava pendente da coqueteria da nossa amiga e muito distante das preocupações de Octávio. Inclinei-me sobre o lado esquerdo da mesa, sobre Alexandra e o seu decote, e era tarde quando me dei conta que Octávio se afastava, jornal debaixo do braço, levantando bandos de pombos na praça. A religião diz que há um tribunal para a luxúria e eu hoje interrompo a minha descrença para me declarar réu e aceitar o castigo.
Nos dias seguintes não tive notícias de Octávio. Os telefones continuavam fora de serviço e de todas as vezes que passei em sua casa não o consegui ver, ainda que, soube mais tarde, ele não tivesse saído. A campainha da entrada, como os demais aparelhos, não funcionava, mas se ele estivesse disposto a falar comigo teria respondido às pancadas na porta, suficientemente fortes para atrair a curiosidade e a censura dos vizinhos.
No quinto dia depois da minha traição com Alexandra recebi uma carta. Suponho que se os correios não tivessem aceitado selar-lhe o envelope Octávio teria encontrado outra forma de me fazer chegar as suas palavras.
Abri o sobrescrito com nervosismo sem evitar rasgar uma parte da carta dentro dele, o que dificultou ainda mais a leitura da sua destreinada ortografia. Eis o que me causou nova desolação:

Meu grande amigo,

No sábado dia tive de sair sem me despedir, espero que me possas perdoar. A Alexandra não peço desculpa, não foi convidada, e, se tivesse ganho alguma da sensibilidade de que tanto precisou sempre, teria percebido que interrompia uma conversa e retrocedido de imediato nos seus passos de mulher fútil.
Ganhei finalmente ânimo para continuar o que te contava, ainda que não o suficiente para to contar pessoalmente.
Passo em alto os pormenores, basta que te diga que o meu nome está hoje proscrito, nada que o tenha aposto é tolerado onde quer que seja. Terás reparado que preenchi o remetente com iniciais, mas eles não demoram a negar-me também essa identidade acrónima. Sou um pária encurralado na minha própria terra, não posso deslocar-me senão à boleia ou a pé, escondendo-me de quem quer que possa por direito pedir-me identificação. Para comer, as poucas vezes que tive de o fazer, recorri à sopa dos pobres, e, se queres saber, não foi isso a pior coisa que me aconteceu.
Ali mesmo, na praça onde estávamos tu e eu, comecei a entender o meu problema. Falavas do teu interesse nos casos de polícia e eu por simpatia fui espreitar essas páginas. Interessei-me por uma notícia em particular, a de uma mulher que acordara de um coma de dois anos e começara de imediato a exigir ser ouvida pela judiciária.
Era um episódio bizarro. A mulher tinha sido vítima de agressões graves causadas pelo companheiro da altura, um homem que ela mantivera longe do conhecimento de familiares e amigos e que a polícia não pôde identificar. Durante os dois anos em que ela esteve em coma, aos familiares não restou mais do que apresentar queixa contra desconhecidos e sustentar as despesas do hospital.
Um dia a mulher recuperou a consciência e quase toda a memória. Digo quase porque se era certo que tinha bem presente o momento da agressão e o sentimento de vingança ou justiça também era verdade que não recordava coisas importantes como o nome, a profissão, a morada, até a nacionalidade do seu amante e agressor.
É por isto que a neurologia é uma ciência fascinante, a mais fascinante delas. Quando o cérebro se lesiona os resultados podem ser imprevisíveis e surpreendentes. Duma pancada na cabeça pode resultar a morte ou alterações permanentes da integridade física ou da personalidade da vítima. Mas ocasiões há em que de acidentes mais críticos não decorre aos que os sofrem mais do que um mal-estar e talvez alguma cirurgia reconstrutiva, complicada só do ponto de vista médico.
Esta mulher sofrera ferimentos consideráveis no corpo, provocados por bofetadas e pontapés, e fora atingida na cabeça por um objecto metálico, que induzira o coma. Inicialmente os médicos acreditavam que ela não recuperaria da pancada e que se recuperasse haveria sequelas muito graves ao nível das capacidades cognitivas. No entanto, ela despertou como se apenas tivesse decorrido uma noite, pronta a apresentar queixa do comportamento selvagem do seu companheiro.
Neste momento perguntas-te, como costumas, que raio tem isto a ver com o meu afastamento. Pois bem, vou esclarecer-te.
Há três anos saí desta cidade. Sei por que saí, sei para onde fui e sei quase tudo o que fiz. Quase tudo não é tudo. Quando regressei senti que fugia de alguma coisa, mas não conseguia lembrar-me de quê. Tentei retomar a vida anterior e fingir que não existia um hiato na minha memória. Não posso dizer que o consegui totalmente. Nos dois meses que levo aqui, raras foram as noites em que me não acometeram pesadelos terríveis e indecifráveis.
Os contratempos que me aconteceram no sábado foram apenas um corolário da noite da véspera. Mas, se despertas de um pesadelo e percebes que ainda o vives, os sentidos ficam mais alerta e ganhas finalmente disposição para sondar o teu espírito. Naquela manhã tinhas-me ali pronto a enfrentar os fantasmas que quisessem aparecer. Não de forma voluntária, não queria nada daquilo, mas como auto-prescrição para o que me afligia.
De forma que li a notícia, em parte estimulado pelo teu discurso, em parte por curiosidade com as partidas da memória e com aquele caso em particular.
A mulher, como te disse, não conseguia lembrar-se do nome nem de outros dados que permitissem chegar objectivamente ao agressor, mas estava capaz de o descrever com profusão de pormenores. E fê-lo, mal teve um agente da judiciária à cabeceira da cama onde a mantinham para exames.
Não sei se foi o agente que vendeu os pormenores da história ao jornal ou se havia algum repórter presente no depoimento da mulher. Sei que a notícia a dada altura citava as suas palavras e eu, ao lê-las, vi construir-se à minha frente um retrato, como se alguém sentado na nossa mesa o pintasse. Não, um retrato não é a palavra certa, o que estava a ser posto à minha frente era um espelho.
E pronto, já vês onde quero chegar. Talvez me devesse alegrar por ver iluminadas as partes escuras da minha vida, ver, ainda que por olhos alheios, o que a minha memória obliterava. Mas não consigo ter essa grandeza. Sou um homem acossado, vítima da curiosidade e da própria cobardia. Preferia continuar na ignorância. Somos uns tolos em querer lembrar tudo, conhecer tudo. O nosso cérebro faz um trabalho magnífico com o seu jogo de claro/escuro, a luz onde convém, sombras sobre tudo o resto, sobreviver é o que importa. Mas nós sentimo-nos acima da biologia, acima da natureza, acima do instinto, queremos apontar holofotes a tudo, admirar com meridiana clareza o lado escuro da lua. Atraímos as consequências e depois é demasiado tarde.
É demasiado tarde, compreendes? Demasiado tarde.

O teu amigo
Octávio

Reli a carta apenas para confirmar que não delirava. Depois procurei em casa os jornais de sábado, mas só nos arquivos da edição online consegui encontrar a notícia de que Octávio falava. Era uma ideia espantosa, a dele. Octávio acreditava ser o agressor daquela mulher.
Tive então consciência de quão profundamente o meu amigo estava perturbado. Não era apenas uma certa disposição para deduzir teorias conspirativas a partir de um conjunto de azares sobrepostos, coincidências espantosas. Era uma apetência para a auto-flagelação, uma imaginação masoquista que adivinhava pecados onde só havia banalidades, coisas indignas de perdurarem na memória pela sua vulgaridade, não por serem abomináveis. Devia ter-lhe acudido naquele sábado infame.
Octávio era inofensivo. Não estava na sua índole infligir sofrimento a ninguém, muito menos no grau descrito pelo jornal. O seu sentimento de culpa, pensei eu, devia ter aflorado por razões radicalmente diferentes. Talvez Octávio sentisse que os três anos de ausência tinham sido uma perda de tempo, um projecto falhado na sua vida. Era um período que o incomodava por não ter frutificado, por não ter representado mais do que um intervalo inútil na sua linha temporal. Um intervalo em que ele se afastara das pessoas queridas, deixara desamparadas amizades, relações de toda a vida. Octávio saíra para obter alguma coisa nova e regressara derrotado no seu propósito.
Eu conseguia compreender que ele andasse obcecado com as razões do seu fracasso, que revisitasse aqueles três anos para descobrir o momento em que tudo começara a correr mal. Mas era para mim uma surpresa total que isto pudesse perturbar a mente de um homem ao ponto de o fazer alucinar. Eu tinha a certeza que Octávio não era um criminoso e estava disposto a jurá-lo.
As notícias seguintes sobre o caso reforçavam a minha crença. Dada a insistência da mulher em que fossem tomadas diligência contra um homem que ela não conseguia nomear mas conseguia descrever, a polícia mandara construir e divulgar um retrato-robot, não propriamente com a palavra wanted em cima, mas com um número de telefone para recolha de informações. Parecia-me uma certa precipitação por parte da polícia, mas naquele momento teve efeitos bastante positivos no meu estado de espírito. O retrato confirmava as minhas certezas: só uma imaginação retorcida poderia ver naquele rascunho os traços de Octávio. Um cabelo diferente, um outro rosto, um outro olhar.
Saí a correr de casa com uma cópia impressa da imagem, disposto a esfregá-la na cara de Octávio, depois de o obrigar a receber-me. Incomodava-me o tom dramático da parte final da carta, mais do que as ideias absurdas que insinuava antes. Aquele não era o estilo de Octávio, mas era definitivamente a letra dele. Quando alguém começa a escrever coisas assim temos talvez de lhe conceder alguma importância, se formos verdadeiros amigos.
À chegada ao seu apartamento havia uma pequena multidão e alguns agentes da polícia. Imaginei o pior, mas não imaginei um mal suficientemente grande. Octávio estava cadáver, mas não estava o suicida que eu temi. O seu corpo jazera sob o impacto das balas da polícia.

Alguns dias depois da minha mágoa e do meu estupor, foram-me dadas explicações. Tinha sido escusado indignar-me e bater no peito. Compreendo que não fosse sensível à eficácia do retrato-robot, disse-me o agente encarregado de ter paciência comigo, afinal nenhum de nós aceita de ânimo leve que se aponte o pior a um amigo. Nós próprios tínhamos algumas reservas, continuou, as que impõe o regulamento, claro está, mas o senhor Octávio encarregou-se de as desfazer. Recebeu-nos a tiro e vendeu cara a vida, por pouco não tomou nenhuma das nossas. Você sabia, perguntou-me retoricamente, que o seu amigo guardava um pequeno arsenal em casa? Não, eu não sabia, e mantinha desesperadas dúvidas quanto à sua culpa. Mas o agente estava preparado para elas e para o meu espírito debilitado, devia ter alguma pós graduação em psicologia. Sabe, disse-me ele, os meus colegas dispararam para se defender e os que o atingiram estariam agora a braços com os seus escrúpulos se não tivéssemos a certeza de que Octávio era culpado.
Escrúpulos, disse ele, e a mim só me ocorreu que todos os homens eram criminosos em potência e vontade. Havia um exame de ADN, prosseguia o agente, fora recolhido esperma do agressor e retiraram-se amostras do cadáver quente de Octávio, mas eu estava a deixar de o ouvir, absorto em ideias de reparação e vingança.

quarta-feira, 22 de Abril de 2009

Um terraço em Davos

Isto tem de ser tudo tão triste. Sim, é uma afirmação. Passámos já a fase da perplexidade, do questionamento, da recusa. Não há outra forma, nada além da tristeza. E, sabes que mais?, gostamos disto assim. Podemos talvez temperar as coisas com um pouco de raiva, um pouco de revolta, mas no final aceitamos o que tem de ser. Não, a raiva e a revolta não são, sequer, resistência. Tempero não é negação, é calçadeira, funil, lubrificante, é tudo aquilo que ajude a empurrar o que de amargo temos a engolir ou a usar. E depois vem a habituação. Estamos habituados à tristeza, não podemos viver sem ela. Mesmo que consideremos por bizarra coerência a hipótese de deixar de viver, de por métodos artificiais interromper isto que é tão triste. E tão bonito.
A Montanha Mágica era um livro inútil, mas lembras-te do terraço. E da manta pelos joelhos. Mais acima dos joelhos, que ali fazia realmente frio. Sim, afirmo-o, sei que te lembras. Mesmo quando não te lembravas de nada do livro, recordavas o terraço. Que ideia estranha, e bela, subir a montanha para ficar deitado num terraço com os joelhos cobertos por uma manta.
Vieram depois os malefícios da ciência: ao doente por fim negou-se o enigma, a possibilidade arrebatada de confiar ao ar e à lenta passagem do tempo a resolução de uma dor nas entranhas, de um quebranto, de um mal de viver (que nunca se explica, de qualquer modo).
Isto tem de ser tudo tão triste para que faça algum sentido, seja suportável morrer. Desejável.
Pulmões. Localizemos nos pulmões — porque temos de lhe atribuir um domicílio — o mal. Receita-te o ar raro e puro de um sanatório a mais de dois mil metros de altitude. Eis a tua desculpa para abandonares o chão que pisas e o resto que houver, o próprio tempo em que vives. Deixa na mesa da sala um veemente conjunto de brochuras e planos de viagens e vem até cá cima. Sobe num desses teleféricos de esquiadores (agora com a neve derretida mais vazios e lentos) e apeia-te num ponto donde possas ver este velho edifício, donde não te pareça irreal a esquiva construção que erguemos num momento que nos pareceu feliz.

Acordou com o sol a aquecer-lhe intensamente os ombros nus e a tornar translúcidas as pálpebras. Ainda não tinha aberto os olhos e já tudo era claro, de uma luminosidade rosácea, coada por cortinas de dossel. Era só ela no meio de um vasto leito inundado de sol. Pensou como fracassavam as pálpebras — o corpo inteiro — em opor-se ao mundo exterior. Sentiria frio, se estivesse frio, como agora sente calor e a textura da rocha; ouviria o tráfego intenso, se no seu lugar não existisse um silêncio desolado e ventoso; cheiraria combustíveis e refeições apressadas, em vez de odores silvestres que não sabia identificar; nos seus lábios gretados prender-se-ia o fumo de um cigarro ou o unguento de um batom ou o amargo grão de um café expresso, se não fosse de uma erva entalada nos dentes o sabor que dominava; e quando abrisse os olhos para receber ainda mais claridade seria penetrada pela devastadora presença de um milhão de vizinhos como agora o era pela súbita ausência de todos eles. O mundo arranjava sempre maneira de atravessar a fina membrana que envolvia a alma, a consciência. Não ganhava nada em permanecer de olhos fechados e recusar saber: o dia tinha nascido e o sol brilhava num céu limpo. Podia apostá-lo.
«Então é assim», pensou, «é isto acordar viúva.»
Era Julho e na encosta não havia qualquer vestígio de teleférico ou ruína de sanatório. Dificilmente naquela serra a neve se aguentava além de uma semana ou duas, mesmo nos invernos mais rigorosos. Mas isso era um pormenor, Helena sabia que a importância não estava nos detalhes. Sentia-se bem capaz de encontrar ali o seu terraço em Davos, a cura impossível para uma enfermidade que se agravava à medida que a ia descobrindo, que a ia nomeando.
Bebera um pouco demais na noite anterior, claro que bebera. Nisso não tinha agido diferentemente. De resto, precisara de vencer alguns medos supérfluos para chegar ali acima.
Não tinha querido demorar-se, era um imperativo estar lá quando acordasse para o primeiro dia sem ele.
Outra no seu lugar teria recorrido a uma agência, viajado para uma altitude mais respeitável, mas quando consultou alguns panfletos percebeu que não era de uma coisa literal que precisava, e a urgência não se coadunava com preparativos. Simplesmente meteu-se com uma garrafa no carro e conduziu uma boa parte da noite.
A notícia da morte surgiu com o espanto em que vêm imersas as primeiras vezes. Morrem milhares de pessoas por hora no mundo e Helena sabia que só quando nos desaparece o primeiro conhecido é que pressentimos como pode ser frio o bafo da velha senhora. O primeiro ente querido morto, pensava ela, é toda uma iniciação, uma reaprendizagem do mundo. Nada do que sabíamos antes se adequa à experiência, centenas de páginas desbaratadas, relatos que nem sequer afloraram o cerne do momento. É simplesmente demasiado estúpido, ilógico, que os que amamos possam morrer.
Helena tinha um conhecimento indirecto de tudo isto (ninguém lhe morrera antes) e reflectia por vezes sobre o tema. Os seus pensamentos, ao mesmo tempo que a preparavam para a novidade absoluta que viria com a morte, ao mesmo tempo que se exercitavam para o instante da infame revelação, reproduziam exactamente o mesmo tipo de autoconfiança de que padeciam os demais humanos.
Ficou destroçada com a notícia.
Num minuto ele estava ali — distante, é certo — e no seguinte não existia. Ah, como queria acreditar na vida eterna, confortar-se pensando que, mais uns anos, e juntar-se-lhe-ia. Ou antes disso, se fosse determinada o suficiente. Havia um lado optimista que ela gostaria de estar apta a explorar.
Não escondia de si própria o facto de que nos últimos tempos estavam tão afastados quanto podem dois seres vivendo nos antípodas estar afastados. No últimos tempos e antes deles. Ele habitava o pensamento dela, sem dúvida, o seu coração, se quisermos usar linguagem pateta, mas não havia como negar os quatro ou cinco anos que ele se mantivera longe do toque dela, longe da vista, na verdade. Para ser exacta, não falavam sequer por telefone há quatro anos e sete meses. Nem valia a pena referir medidas de tempo mais estritas, embora ela tivesse essa contabilidade feita.
Não chegara a haver divórcio. Também não chegara a haver casamento. Ou algo que se aproximasse. Conheceram-se. Conheceram-se num dia de celebração da natureza. Um daqueles dias tão belos e tão perfeitos em que o amor é uma coisa fácil e acontece. Um só olhar e as pessoas apaixonam-se. Ele estava ali, ela estava ali. Ela amou-o à primeira vista.
Era uma excursão organizada. Um grupo pequeno, seis ou sete elementos. Por vezes, pessoas como ela ansiavam por uma possibilidade de conhecer mais intimamente a Natureza e tudo o resto. Não tinha sido sua iniciativa, mas, por Deus, há que tempos pensava numa coisa assim. Agarrou a oportunidade com unhas e dentes.
Era opinião unânime que não lhes podia ter calhado melhor guia, analisassem o assunto pelo ângulo que quisessem. Ele tinha sido a pedra justa no melhor puzzle do mundo. Debitava um conhecimento enciclopédico — de biólogo, ou quase —, mas ministrado com suavidade, humor, paciência, perspicácia, e personalizado. Ninguém se sentia deixado para trás e ela muito menos. Depois (as mulheres tinham falado disto) havia alguma coisa naqueles cabelos longos, soltos, naquele torso despido da t-shirt ao fim dos dois primeiros quilómetros, «com a devida permissão do grupo».
Acamparam numa clareira num colo da montanha. Ele estabeleceu os limites do grupo, um conjunto de elementos topográficos assinalava pontos além dos quais não deviam passar, sob risco de quedas, extravios, encontros indesejados com feras. Talvez exagerasse um pouco o seu papel (aquilo não era África!), mas fazia-o com delicadeza e genuína preocupação (talvez aquilo fosse África, para gente como ela). Depois subiu a uma plataforma rochosa com o cantil amarrado à ilharga e um livro grosso na mão. Dali de cima dominava uma vasta paisagem e metia inveja por isso.
Helena demorou três ou quatro vezes mais do que ele a chegar, mas sentiu o que talvez sintam os pioneiros: exaltação e omnipotência. Sim, naquele dia podia fazer tudo.
Estava habituada a ver gente a ler no metro. Não muita, razão por que era excitante observar os que o faziam. Costumava pensar a brincar que aqueles, os que liam, eram os únicos que pensavam, os outros limitavam-se a agir, a dar asas aos instintos. Talvez por isso tenha sentido um pouco de vergonha quando notou que os instintos tinham participado fortemente na decisão de subir até ao promontório rochoso, e que eram ainda os instintos, os instintos de fêmea, que sustentavam uma grande parte da sua curiosidade em relação àquele homem.
Mas havia mais do que desejo. Podia aliás asseverar, sem perjúrio, que o desejo tinha ficado para segundo plano quando minutos depois o conheceu. Agora que pensava no assunto, iria detestar sentir-se viúva de alguém por quem apenas experimentara desejo.
Poucas vezes lhe passara pela cabeça ler Thomas Mann. Quer dizer, poderia ler um dos livros mais pequenos, talvez, mas A Montanha Mágica estava na mesma prateleira do Ulisses e do Em Busca do Tempo Perdido, uma prateleira muito fora de mão nos dias que corriam. No entanto ele começou a falar do livro e a Helena só lhe apetecia ir a correr à biblioteca ou a uma livraria para obter o seu exemplar. Há pessoas assim, entusiasmantes, que contaminam os assuntos, derramam carisma sobre os objectos, transformam em ouro aquilo que tocam ou mencionam.
O ocaso foi demorado e só desceram quando escurecera de facto. Nas semanas seguintes, Helena tentou reconstruir inúmeras vezes aquele período, mas faltava-lhe sempre algum pedaço. Não se lembrava, por exemplo, de como tinham caído nos braços um do outro, e nem lhe passava pela cabeça que isso não tivesse acontecido. Tinha acontecido, não tinha? Como poderia ela apaixonar-se daquela maneira se não tivesse sentido o sabor dos seus lábios, experimentado o seu abraço forte? Não se lembrava.
Disto lembrava-se: da imensa generosidade dele, expressa naquele gesto maravilhoso que foi depositar-lhe o livro na mochila no regresso e dizer-lhe «é para ti, gostava que o lesses».
E ela leu-o. Uma vez, duas vezes, três vezes. Nos quatro anos (e sete meses) que se seguiram àquela tarde, voltou à Montanha Mágica como as crianças voltam ao colo da mãe.
Iniciou a primeira leitura de uma forma ávida, apressada, queria absorver rapidamente o volume de forma a poder encontrar-se de novo com dele. Sentia aquilo como uma prova, um ritual de passagem. Leria o livro e amá-lo-ia incondicionalmente depois disso. Imaginava-se a telefonar-lhe uma semana depois do acampamento anunciando o fim da leitura e a vontade de discutir várias partes ou toda a obra. Poderia parecer um móbil, aquilo, uma desculpa para se encontrar com ele, mas, sinceramente!, por que precisaria Helena de uma desculpa?
Talvez o erro, o que afastou a possibilidade de um novo encontro, tivesse sido ligar-lhe quando ainda só tinha devorado cem páginas. Que raiva! Soube de imediato que se estava a precipitar, mas não conseguiu impedir-se. Era um abuso querer trocar impressões logo no início da tarefa. Ela própria teria torcido o nariz a alguém assim, com esta pressa, impaciente, incontinente. Ele não atendeu o telefone e Helena percebeu logo porquê. Se atendesse, ela teria notado o seu tom aborrecido, desiludido, e alegrou-a que ele a poupasse a essa humilhação.
Claro que, se ela tivesse podido explicar-lhe que tinha outras razões para o telefonema, as coisas poderiam ter acontecido de forma diferente.
Havia uma folha A4 dobrada no meio do livro, algo que a excitou imenso, um texto incerto, mas que lhe pareceu uma carta e por isso decidiu que era uma carta. Mesmo antes de ler o papel deu consigo a calcular as probabilidades de não se tratar de um esquecimento, de ele ter deixado propositadamente a folha no meio das páginas que lhe pedira para ler. Ligou-lhe sem espreitar o que quer que estivesse escrito naquela folha, obedecendo a um dos princípios positivos da sua educação.
Mas depois, não tendo ele atendido, leu-o de uma assentada.
Nada indicava que lhe fosse dirigido (era uma papel impresso e não havia impressoras na montanha), mas ela não conseguiu libertar-se completamente da ideia de que alguma parte daquele texto ou mesmo todo o texto lhe era endereçado. Por que haveria de o não ser? Naqueles cinco parágrafos estava resumida a sua vida, ela era aquele texto. Ou quase. Mal terminasse de ler A Montanha Mágica poderia reclamar com toda a propriedade o lugar de destinatário.
Ok: tecnicamente aquela não era uma carta para si, não poderia ser, fora escrita antes de se conhecerem. Ela não estava louca, não valia a pena insistirem nesse tipo de argumentos. Não conseguia lembrar-se de algumas coisas, era tudo. Mas, por outro lado, o que sabem os técnicos de coisas como o amor? Todas as cartas têm um destinatário definido logo que são escritas? Tudo é assim tão previsível, tão discernível?
Ah, não!… Ela sabia desde Hamlet que há mais coisas entre o céu e a terra do que nos é dado crer. E Helena não amaria um homem que escrevesse palavras daquelas para outra. Mesmo um homem que vira uma única vez.
No entanto, tudo era agora inútil. Quatro anos e sete meses depois de se conhecerem, ele morrera. Estava viúva.
Olhou em volta, espreitou o vale lá em baixo, aconchegou-se no seu promontório e, apesar do calor, puxou para os joelhos a manta de xadrez. Começou a ler: «Um rapaz simples viajava, em pleno Verão, de Hamburgo, sua cidade natal, para Davos-Platz, no cantão dos Grisões.»

segunda-feira, 20 de Abril de 2009

[Prenúncio]

O arquivista foi lá dentro pôr os manguitos. Amanhã será dia de júbilo.

segunda-feira, 6 de Abril de 2009

[O tédio do arquivista

é quase tão grande quanto o dos leitores, mas enfim, lá se registou mais um conto.]